sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O se... da Civilização

E se a civilização começasse com a repressão? Viver em sociedade é seguir normas estabelecidas? Como construir uma ética do comportamento se há tanta ausência em pensar no outro? Ser civilizado é antes de tudo um aprendizado de como se relacionar com o outro a estabelecer um dever ser seja com relação à moral ou a ética, relacionando-as sempre com as leis que reprimem de maneira efetiva a quebra de regras e que estabelece sanções dentro de um ordenamento jurídico.
            O civilizar inicia na família. Educa-se filhos para ter comportamento adequado e com certa independência, dando ênfase no agir de maneira aceitável e respeitando princípios onde a autoridade dos pais sobre a criança se estabelece por limitações de atos classificados como “maus comportamentos” com os conceitos de certo ou errado trazidos pelos costumes da sociedade da época.
            Esta relação tem como característica primordial o reconhecimento da autoridade e dependência de sua proteção pelos pais, preceito predominantemente moral que moldará a maneira como cada um no futuro deverá se portar aos costumes morais ditados pela sociedade e por normas jurídicas já estabelecidas, portanto, é parte fundamental do ato civilizatório do ser humano. Sendo que o aprendizado não se estabelece de maneira expressa em documento, mas sim por uma aceitação moral por parte da criança relacionada ao afeto que tem pelos pais que leva a obediência e ao comportamento de um ser civilizado.
            Para exemplificar a afirmação acima pode-se falar que quando uma criança se dirige a um móvel para pegar um objeto de maneira instintiva é persuadida por um dos pais de imediato, registrando assim tal atitude como uma não aceitação e passando a frear suas vontades por um já entendimento de repressão, coibindo comportamentos introduzidos no núcleo familiar.
Quando a relação social se amplia para além do ciclo familiar através da educação escolar se pode vivenciar a ética em sociedade e neste período se constrói novas relações sociais introduzindo responsabilidades e deveres para com os outros. No mesmo aspecto é esperado como dever do estudante uma postura civilizatória, que expressa das mais diversas formas e descrita em norma estabelecida, por exemplo, como em um regimento interno da própria instituição de ensino, onde estão listados direitos e deveres e caso haja alguma quebra das normas, uma sanção, sendo as sanções o ato repressivo que ocorre quando não se está dentro do padrão.
As relações de convívio social têm uma fundamentação moral que tem como consequência a ética, o dever ser que como uma questão de civilidade, é o agir corretamente dentro de um grupo social. Para garantir que cada indivíduo seja consciente moralmente e continuamente, estabelece-se uma regulamentação para cada situação apresentada, ou seja, saber o que é moralmente aceitável, estar em harmonia com as regras e em equilíbrio com as vontades e a realidade, fazendo do certo, o ético.
Não é moralmente aceitável, por exemplo, ser desonesto, em qualquer atitude do cotidiano não podemos furtar, faltar com a verdade, agir contra a lei, matar, copiar e colar textos sem citar a fonte, agir com ética resulta de uma conduta civilizatória e se é reprimido por uma falta de conduta e de fim, não só para comigo, mas também para com o grupo do qual participo.No entanto, para viver em sociedade não se pode esperar apenas da moral ao estabelecer o que é certo ou errado, dar conta apenas das atitudes consideradas éticas diante da consciência, dar conta de uma sociedade cada vez mais complexa e somente com o estabelecimento de regras ela permanece, por meio de leis que o ato de ser civilizado sai do campo imperativo de dever e passa a ser regulamentado por normas legais repressivas que pretende alcançar toda essa complexidade chamada humano.
[...] Nada é verdadeiramente bom sem que também seja útil. A beleza consiste na exata função de cada coisa ou de cada ser, segundo os fins que a Natureza tende a realizar, e na perfeita utilidade que os objetos alcançam, quando são convenientemente fabricados [...] (Sócrates, Introdução à Filosofia da Arte, São Paulo, ática, 2010.p.18).
Os atos humanos sempre estarão norteados na moral e na ética a que se acrescenta com a norma legal, pois não há civilização sem penalização para guiar os instintos. O comportamento humano volta-se muito mais para o prazer da vontade do que para a harmonia entre as partes. Sem a sanção diante do não cumprimento da lei, como não teria avançado comportamentos prejudiciais a sociedade?  Em muitos casos saber o que é certo ou errado não é suficiente, cabe então a previsão de uma penalidade com o objetivo de reprimir e servir de aviso para os demais.
Uma atitude que pode exemplificar o entendimento da função social da lei é o ato de consumir bebida alcoólica e dirigir, mesmo sabendo que isto é reprovável, foi necessário reprimir essa falta de civilidade através de uma lei que prevê punições ao infrator que vai além da consciência do dever e que se impõe como força repressiva, onde o Estado reprime o cidadão de maneira impessoal visando o bem comum da coletividade.
Portanto, as normas têm como finalidade garantir que toda sociedade contemporânea siga preceitos inteligíveis de se relacionar, não apenas de maneira instintiva, mas com regras claras estabelecendo direitos e deveres. O que inicialmente estava apenas pautado em comportamentos e sobre a égide de certo e errado como sendo do senso comum estão agora sobre normas legais, mediando relações e fazendo com que haja uma busca pelo justo, através da razão, que impede que cada um realize o que entende e que agrade aos seus olhos, para fazer por um grupo, assim as normas são de certa forma uma evolução da ética que através da repressão, se constrói, se organiza, se distribui e principalmente se vive em sociedade.


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