domingo, 7 de junho de 2015

Mostra a Tua Cara

            
O Brasil é um país historicamente formado por uma miscigenação de três raças o branco, o negro e o indígena e se prega desde seu descobrimento em um ideal de pacificação e aceitação do brasileiro com relação à cultura e ao pensamento europeu que leva a desconstrução da identidade do índio ou do negro.
O ideal de branqueamento como um processo contínuo e natural, ou seja, o negro deixando de fazer parte do povo brasileiro através da miscigenação era o desejo da classe dominante nos anos vinte e trinta. Cabe ressaltar que inicialmente qualquer mudança social esta intrinsecamente ligada ao poder e a relação que esse tem com determinado seguimento e nos anos vinte os governos republicanos e suas alternâncias não representaram qualquer avanço para a população em geral.
          As mudanças que demonstraram um avanço social para os menos favorecidos vieram por meio de críticas de opositores que surtiu efeito através não das lutas armadas mas, pela escrita que denunciava os desmandos da república e defendiam que as instituições deveriam seguir não um padrão brasileiro, não mais europeu.
             Em 1911 a questão da raça foi elevada ao campo mais científico com relação ao branqueamento e o papel do negro para a formação do povo brasileiro. Roquete Pinto criticou duramente a teoria de Darwin com relação à superioridade das raças sobre outras. Neste particular os mestiços eram aceitos como superiores ao branco o que deveria impulsionar o Brasil para o progresso não era a segregação racial, mas sim a unidade independente de raça ou classe social.
Com relação à cultura, o marco se deu pelo rompimento com o ideal de cultura europeia, onde na semana de arte moderna em 1922 com o surgimento do modernismo, os temas artísticos tratados no Brasil foram inspirados nas tradições e belezas naturais com uma identidade própria. A forma como a arte se constituiu resgatou a identidade do Caboclo, (Jeca) retratado por Monteiro Lobato que trata sobre a questão da raça na análise apresentando o estereótipo sustentado pelas elites que culpavam o agricultor pelo não desenvolvimento do campo, quando na verdade este era mais uma vítima da falta de investimento agrícola do governo, nas regiões pobres, sem qualquer assistência a saúde.
Outra personalidade fundamental foi Gilberto Freire que organizou ainda em 1934 o I Congresso Afro-Brasileiro do Recife, mas sua contribuição singular foi com a obra literária Casa Grande e Senzala de 1933 que mostrava de que maneira os negros e mulatos influenciaram o estilo de vida com relação à comida, indumentária e sexo dos fazendeiros, até então não retratada e já em 1936 ampliou sua análise com a obra, Sobrados e Mucambos, onde apresentava a confluência social do urbano e do rural do século XVIII  e  começo do século XIX.     
            Na obra Casa Grande e Senzala muitos mitos com relação à condição de miscigenação como sendo inferior caía por terra, com bases científicas que comprovavam os ganhos por herança que tiveram, inclusive os europeus. Denunciava como as doenças dos brancos estavam sendo transmitidas para os índios e negros, somada a condição de moradia e alimentação precárias, que causavam mortes prematuras.  
            Mesmo com todos esses avanços com relação a aceitação do negro no Brasil, seguia por parte das elites o esforço para fortalecer o ideal de branqueamento no Brasil, isto ficou claro com a Lei n° 209\1921 apresentada na Câmara Federal proibindo a migração de indivíduos de cor preta, ao qual não prosperou, que fez com que o ideal de branqueamento fosse abandonado. Roberto Freire defendia em sua obra que existia uma civilização africana e, portanto esta contribuía sensivelmente com a formação cultural de crença e valor social, sendo inconcebível qualquer diferenciação racial.
            Foi proposta uma Lei com a intenção de permitir a migração de europeus para o Brasil, Fidelis Reis seu autor não acreditava que o branqueamento no Brasil fosse obter êxito, por isso buscou apoio não só de políticos, mas de juristas do qual não teve a simpatia de Clóvis de Bevilacqua.
            Finalmente em 1934 a Assembleia Constituinte adotou o princípio de cotas nacionais que garantiam um limite de 2% na entrada de emigrante no Brasil com relação a população total do pais. Já na Constituição de 1945 no governo Getúlio Vargas, foram estipulados pelo Decreto Lei n° 7.967/1945 que os imigrantes seriam admitidos em conformidade com a necessidade de preservar e desenvolver a composição étnica da população, as características mais convenientes de sua ascendência europeia e assim permaneceu mesmo com a aprovação da constituição de 1946 que denotava um pensar racista que prevalece até hoje.
            O grande expoente do ideal do branqueamento foi Oliveira Viana que buscou justificar seus ideais com estudos como o que lançou num censo em 1920 onde apresentou prova empírica do quanto o Brasil estava caminhando para o branqueamento, o detalhe é que esse estudo, foi realizado no sul do país, que recebeu como título oficial “A Evolução do Povo Brasileiro”, cabe ressaltar, que esta publicação foi anexada ao censo oficial nacional do mesmo ano reforçando o ideal de superioridade e inferioridade. Viana afirmava que o branqueamento por meio da imigração europeia seria plena de sucesso, que opondo-se a esse ideal cientifico estava Roberto Freire, no entanto, Viana conseguiu fazer-se entender como cientista na sua tese, dando a elite o que se apoiar.
            Fica evidente a tentativa científica e intelectual em fazer do branqueamento não apenas um ideal, mas uma realização, e neste particular Paulo Prado buscou com o estudo e com o perfil psicológico, onde exaltava a necessidade de se formar uma nova ordem, onde não era o aspecto econômico que importava mas, o entendimento de que ser branco era uma questão de caráter irrevogável ao futuro.
            Por fim, a década de trinta trouxe a questão do nazismo como um complemento a todos esses atos que buscavam o branqueamento do Brasil, em especial os membros da ação integralista brasileira que se posicionavam como sendo antissemitas em suas publicações, mas como não havia interesse do governo brasileiro em propagar o pensamento nazista, estes foram suprimidos pelo governo de Vargas, deixando claro que em um pais heterogêneo não cabia tal atitude política.

            Todos os fatos mencionados nesse texto deixam claro que o Brasil não assumiu pacificamente a condição de pluralidade racial e que na contemporaneidade pode ser comprovado por um racismo velado onde não se tem um ideal claro de branqueamento mas certamente, se tem um preconceito ainda não superado na sociedade.

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